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O que os números do SUS revelam sobre o câncer de mama: onde o cuidado se perde antes do diagnóstico

Por Clínica Feme

26 de outubro de 2026

Todo outubro, o Brasil fala de câncer de mama. Os números que saíram neste Outubro Rosa de 2026 mostram que o desafio vai além de informar: é preciso fazer a mulher chegar a tempo, no momento certo, ao lugar certo. Neste artigo, reunimos os dados mais recentes para entender onde o cuidado costuma se perder e o que isso significa na prática.

O tamanho do problema

O INCA estima 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio 2026–2028 [1]. É o câncer que mais mata mulheres no país: foram 21.668 mortes em 2025, o maior número da série histórica e 39% a mais do que em 2015. A taxa bruta de mortalidade passou de 14,8 para 19,5 óbitos por 100 mil mulheres [2]. Por ser uma taxa bruta, ela não desconta o envelhecimento da população, e os próprios autores do levantamento ressaltam que parte do aumento pode estar ligada ao crescimento no número de diagnósticos.

Entre 2015 e 2025, foram 203.785 mortes registradas [3]. Há também sinais positivos: o INCA aponta redução da mortalidade entre mulheres de 40 a 49 anos no período de 2020 a 2023 e melhora no tempo entre o diagnóstico e o primeiro tratamento nos últimos anos [4].

O que o estadiamento diz sobre o caminho até o diagnóstico

O estadiamento descreve a extensão da doença no momento em que ela é descoberta. Segundo o Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, que analisa dados de 2015 a 2025, 51% das pacientes foram diagnosticadas nos estágios 3 ou 4 [5]. A proporção aumentou durante a pandemia e não voltou ao patamar anterior [2].

Em estágios mais avançados, o tratamento costuma ser mais longo e complexo, e as opções mudam. Por isso o estágio ao diagnóstico é um dos indicadores mais acompanhados pelos especialistas. Ele funciona como um retrato de quão cedo a mulher consegue chegar ao sistema de saúde.

Rastreamento: a distância entre a meta e a realidade

A cobertura da mamografia de rastreamento em mulheres de 50 a 69 anos atendidas pelo SUS foi de 22,1% em 2025. A Organização Mundial da Saúde recomenda ao menos 70% da população-alvo, e o SUS não atingiu essa marca em nenhum biênio desde 2015 [2][6]. Em 2020, o índice caiu para 13,6%. As diferenças regionais também são grandes: Norte e Centro-Oeste registraram as menores coberturas (10,6% e 13,5%) [2].

Há um ponto metodológico importante: esses números consideram apenas a rede pública. O Ministério da Saúde argumenta que a análise precisa levar em conta a parcela da população atendida pela rede privada, e informa que o SUS realizou 4,4 milhões de mamografias em 2025, o maior volume já registrado [2]. Os dados, portanto, mostram uma lacuna, mas não medem o país inteiro.

Por que o modelo importa

O Brasil adota o chamado rastreamento oportunístico: o exame é feito quando a mulher chega a uma consulta e o profissional o solicita. Quem não procura o serviço, em geral, não é convocada [2]. Especialistas defendem o rastreamento organizado, em que o sistema identifica quem deve fazer o exame, convoca, garante a vaga e acompanha o resultado.

Esse detalhe tem uma consequência prática: a consulta de rotina é, hoje, a principal porta de entrada do rastreamento. Sem a consulta, em muitos casos não há solicitação de exame.

O ponto cego das mulheres jovens

Os dados mostram que o diagnóstico tardio é proporcionalmente mais frequente entre as mais jovens [2]:

Faixa etária Diagnósticos em estágio 3 ou 4
20 a 29 anos cerca de 7 em cada 10
30 a 39 anos 62,7%
40 a 49 anos 54,6%
50 a 69 anos cerca de 48%

Os especialistas apontam alguns motivos. O rastreamento de rotina não é indicado para mulheres muito jovens, porque a doença é menos frequente nessa idade, e os tumores tendem a ser descobertos quando já causam sintomas. Abaixo dos 40 anos, há proporcionalmente mais tumores de crescimento geralmente mais rápido, e a mama mais densa reduz a sensibilidade da mamografia [2]. Soma-se a isso a baixa suspeição: como a doença é incomum, mulher e profissional tendem a supor que uma alteração seja benigna, o que, de fato, costuma ser verdade, mas pode atrasar a investigação.

Há ainda um problema de informação. O Índice de Conscientização sobre o Câncer de Mama indica que 86% das mulheres não sabem que a mamografia pode ser feita em qualquer idade quando há indicação médica [2]. Quem percebe uma alteração aos 25 anos pode concluir que “ainda não tem idade” e adiar a consulta.

Depois do diagnóstico: o tempo também conta

Entre 2015 e 2025, as pacientes do SUS esperaram em média 123 dias entre o diagnóstico e a primeira terapia. Cerca de 57% ultrapassaram o limite de 60 dias previsto na Lei 12.732/2012 [6]. A região Sul tem o maior percentual de casos tratados dentro desse prazo [4].

O que mudou na política e o que segue em debate

Em outubro de 2025, o governo federal ampliou o acesso à mamografia: mulheres de 40 a 74 anos podem fazer o exame mesmo sem sinais ou sintomas, mediante solicitação médica [2][7]. O Ministério da Saúde mantém a recomendação de realização a cada dois anos.

Outras entidades defendem um intervalo menor. A Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e a Febrasgo defendem o rastreamento anual a partir dos 40 anos [2]. Esse desencontro entre recomendações é um dos motivos pelos quais a decisão deve ser individual, considerando idade, histórico pessoal e familiar e as orientações do médico.

No cenário internacional, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC/OMS) projeta aumento de 38% nos casos de câncer de mama no mundo até 2050 [8].

O que esses dados significam para a mulher

Os números contam uma história de acesso e de tempo. Três pontos merecem atenção:

  1. Consulta regular é o que ativa o sistema. Como o rastreamento depende da solicitação médica, manter o acompanhamento em dia é o que abre o caminho para os exames indicados.
  2. Idade não é salvo-conduto. Qualquer alteração persistente nas mamas merece avaliação médica, mesmo em mulheres jovens e sem histórico familiar.
  3. Cada etapa tem seu prazo. Do exame à confirmação e ao tratamento, o tempo importa, e vale acompanhar cada etapa com o seu médico.

Na FEME, que cuida da saúde da mulher em Niterói há 30 anos, acreditamos que o cuidado começa na escuta. Se a sua consulta de rotina está atrasada, ou se você notou alguma mudança que ainda não levou ao médico, este é um bom momento para agendar.

Agende pelo site ou pelo telefone (21) 4063-6524.

Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação de um médico. A indicação de exames e a periodicidade devem ser definidas com seu profissional de saúde.

Referências

[1] CNN Brasil. Inca estima 78,6 mil casos de câncer de mama no Brasil para 2026. Mar. 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/inca-estima-786-mil-casos-de-cancer-de-mama-no-brasil-para-2026/ (a partir da estimativa do INCA para 2026–2028).

[2] Instituto de Longevidade MAG. Câncer de mama em estágio avançado atinge 7 em 10 jovens (cobertura do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, Observatório de Oncologia/Abrale e Instituto Natura; inclui a nota do Ministério da Saúde). 2 out. 2026, atualizado em 8 out. 2026. https://institutodelongevidade.org/longevidade-e-saude/saude-fisica/cancer-de-mama-em-estagio-avancado

[3] O Liberal. Norte tem menor cobertura de mamografias do país. 15 out. 2026. https://www.oliberal.com/saude/norte-tem-menor-cobertura-de-mamografias-do-pais-1.1182950

[4] Agência Brasil, via O Imparcial. Instituto divulga relatório sobre câncer de mama no Brasil (INCA, Controle do Câncer de Mama no Brasil: Dados e Números 2025). 3 out. 2025. https://oimparcial.com.br/noticias/2025/10/instituto-divulga-relatorio-sobre-cancer-de-mama-no-brasil/

[5] Viva. Maioria dos casos de câncer de mama no SUS é descoberta tardiamente. 5 out. 2026. https://viva.com.br/saude-e-bem-estar/maioria-dos-casos-de-cancer-de-mama-no-sus-e-descoberta-tardiamente.html

[6] Afya. Câncer de mama no SUS: dados apontam assimetria racial no cuidado. 14 out. 2026. https://portal.afya.com.br/oncologia/cancer-de-mama-no-sus-dados-apontam-assimetria-racial-no-cuidado

[7] Afya. Mulheres jovens concentram diagnósticos tardios de câncer de mama. 2 out. 2026. https://portal.afya.com.br/ginecologia-e-obstetricia/mulheres-jovens-concentram-diagnosticos-tardios-de-cancer-de-mama

[8] Correio Braziliense. Casos de câncer de mama devem disparar (relatório IARC/OMS). 7 mar. 2025. https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2025/03/7079018-casos-de-cancer-de-mama-devem-disparar.html